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<title>José Godoy Garcia</title>
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<wx:section level="1" title="José Godoy Garcia" id="wxsec1"><h1 class="pagetitle" id="wx1">José Godoy Garcia</h1>

<p id="wx2"><b id="wx3">José Godoy Garcia</b> (<a href="/wpt/3_de_junho" title="3 de junho" wx:linktype="known" wx:pagename="3_de_junho" wx:page_id="13328" id="wx4">3 de junho</a> de <a href="/wpt/1918" title="1918" wx:linktype="known" wx:pagename="1918" wx:page_id="23897" id="wx5">1918</a>, <a href="/wpt/Jata%C3%AD_%28GO%29" class="new" title="Jataí (GO)" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Jataí_(GO)" id="wx6">Jataí</a>, <a href="/wpt/Goi%C3%A1s" title="Goiás" wx:linktype="known" wx:pagename="Goiás" wx:page_id="917" id="wx7">Goiás</a> - <a href="/wpt/20_de_junho" title="20 de junho" wx:linktype="known" wx:pagename="20_de_junho" wx:page_id="14857" id="wx8">20 de junho</a> de <a href="/wpt/2001" title="2001" wx:linktype="known" wx:pagename="2001" wx:page_id="9351" id="wx9">2001</a>) foi um <a href="/wpt/Poesia" title="Poesia" wx:linktype="known" wx:pagename="Poesia" wx:page_id="14822" id="wx10">poeta</a> <a href="/wpt/Brasil" title="Brasil" wx:linktype="known" wx:pagename="Brasil" wx:page_id="404" id="wx11">brasileiro</a>, modernista. Atuou nos movimentos revolucionários perseguidos pela ditadura militar.</p>

<p id="wx12">Em 20 de junho de 2001 ele sofreu enfarte fulminante. Interrompia-se a vida que começara em Jataí (GO), em 1918, mas que deixava um legado poético de dar orgulho à nacionalidade brasileira.</p>

<p id="wx13">Uns três anos antes de seu falecimento, <a href="/wpt/Herondes_C%C3%A9zar" title="Herondes Cézar" wx:linktype="known" wx:pagename="Herondes_Cézar" wx:page_id="260411" id="wx14">Herondes Cézar</a> e <a href="/wpt/Salom%C3%A3o_Sousa" title="Salomão Sousa" wx:linktype="known" wx:pagename="Salomão_Sousa" wx:page_id="43990" id="wx15">Salomão Sousa</a> auxiliaram José Godoy Garcia a organizar o livro <b id="wx16">Poesia</b> (<a href="/wpt/1999" title="1999" wx:linktype="known" wx:pagename="1999" wx:page_id="11365" id="wx17">1999</a>), edição do autor publicada pela <a href="/wpt/Thesaurus_Editora" class="new" title="Thesaurus Editora" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Thesaurus_Editora" id="wx18">Thesaurus Editora</a> (DF), que ele considerava o compêndio definitivo de sua produção poética.</p>

<p id="wx19">No texto que aparece na quarta capa de <b id="wx20">Os dinossauros dos sete mares,</b> ele se denomina rapsodo, pois, nos últimos livros, procurava estabelecer um contínuo processo narrativo entre os poemas. Algo homérico, uma falsa tragicomédia. E apresenta aquilo que era a sua poética: “… poesia que se aninha em verdades de ritmos simples, naturais, nunca discursivos, sempre como caixa de ressonância do dia, com uma pauta que elimina o vago, pó insosso; amplo de ansiedades e eventos da vida do ser humano comum. Uma poesia cheia de memória da terra. Há aqui um movimento da vida dos rios e florestas morrendo, de gente do povo e sua saga heróica. Há aqui um cotidiano em ritmo de lendas, ironia em favor da vida. Daqui a mil anos ainda se poderá lembrar da terra e deste tempo.” E temos de abonar, sem titubeios, a sua visão sobre a própria poesia, que outro não poderia determinar com melhor clareza. A Terra cria colorações novas com a sua poesia.</p>

<p id="wx21">Será um jogo intrincado para os críticos o reposicionamento de uma obra definitiva de José Godoy Garcia. De alguns livros, chegou a abolir mais da metade dos poemas e, assim mesmo, aqueles que foram publicados estão reescritos. Basta citar o caso do livro Os dinossauros dos setes mares, que na edição original tem 115 poemas e só 52 foram mantidos. O primeiro deles chegou a ser completamente reformulado. Para mim, as duas versões são poemas quase distintos. Versão original do poema “Os sobreviventes”:</p>

<p id="wx22">'Quando todos imaginavam a vida sem sentido chegaram de manhã os sobreviventes, levantaram suas moradas, estiveram indo ao rio, procuraram o rebanho disperso, prepararam o alimento. Cantavam e derramavam o suor nos campos, faziam fogo à noite, despachavam barco de madrugada. As chuvas eram cirandas levantando o pó da terra e enchiam de confiança a face das criaturas. As chuvas eram sempre bem-vindas, as mulheres viam crescer dentro de si um novo rebento, seus ventres cresciam. Nenhum acontecimento marcava tanto a vida dos homens como aquele das mulheres que apareciam vermelhas e de ventre crescidos. Rejuvenesciam; reerguiam a esperança, não a da terra, mas aquela da vida, a de caminhar, alcançar bons resultados na safra, Eles se lembravam de Natividade…</p>

<p id="wx23">Versão que aparece na edição de Poesia:</p>

<p id="wx24">Quando todos imaginavam a vida sem sentido chegaram de manhã os sobreviventes, e levantaram suas moradas, estiveram no rio, procuravam o rebanho disperso, preparavam o alimento, cantavam, derramavam o suor nos campos, faziam fogo à noite rememoravam o corpo de suas mulheres, despachavam os barcos, pela manhã. As chuvas eram sempre bem-vindas, as chuvas levantavam o pó da terra e enchiam de confiança a face da vida. As mulheres viam nascer dentro de si um novo rebento, os seus ventres cresciam. Nenhum sinal de confiança quando as mulheres apareciam de ventre crescido. Os dias eram os mesmos, a esperança e a desesperança eram as mesmas.'</p>

<p id="wx25">Em seus dois últimos livros, Godoy alcançou maior despojamento, abandonou um pouco o engajamento. Livrou-se até dos títulos dos poemas. Adotou uma postura mais concentrada, permitiu a entrada da secura do cerrado, das ruas da cidade, principalmente da Capital. Conseguiu melhor organização formal. Dominou a euforia. Não é mais uma natureza caudalosa que vai crescendo formas intricadas. Engana os formalistas com inclusão de sonetos entre a liberdade de seus poemas. Obras-primas para o maravilhamento de existir:</p>

<p id="wx26">Estive pensando hoje de manhã que fino trabalho fez o céu? para amanhecer com cara de romã? Estive pensando hoje de manhã onde será que nascem os ventos? para viverem assim de déu em déu? que nuvem é como pensamento sai andando sem poder parar. Estive pensando hoje de manhã enganoso pensar que o mar vive sozinho parado sonhando. Estive pensando hoje de manhã que tudo na terra vive amando: mar, nuvem, vento, idéia, romã.</p>

<p id="wx27">Quem conviveu com José Godoy Garcia só poderia se encantar com a forma como ele irradiava e captava as metáforas de alegria do mundo, sem nunca perder a lealdade com o instante histórico. Em <b id="wx28">Os dinossauros dos sete mares</b>, dentre os seus livros o que ele considerava que conservou mais intimidade com a atualidade – numa obra que sempre será atual, se íntima da vida –, aparece esta confissão sobre a relação ontológica entre a vida e a obra: Ah, se não houvesse a poesia/eu simplesmente seria um zé garcia atravessado/na garganta de deus e do diabo, eu não seria um zé/…/eu não seria, engraçada, uma tempestade muda. Ele se sublimou em não fazer estardalhaço, mas conter-se para ser. Tanto polemizava e se retraía dentro de seu processo criativo que o homem, às vezes, prejudicava o andamento da obra, já que os meios de divulgação exigem a presença manipulada do autor para amostra de sua obra. Apesar de ter dedicado 12 anos à luta do Partido Comunista (1945/57), prestando serviços os mais diversos, principalmente advocatícios e de gestão de finanças, o engajamento, que foi obrigatório para os escritores de países onde dominava o regime comunista, não teve reflexos castradores na sua produção poética, quase paralisada naquele tempo. A adoção da filosofia estética de Lukács salvou a sua poesia da grandiloqüência e do prosaísmo. Em seus poemas, o homem aparece em movimento, onde está sendo; e não em ação, onde tem a obrigação de adotar uma postura de ser. Quan-do muito, a indignidade buscando destruir os desorganizadores do humanismo.</p>

<p id="wx29">O jornalista Antônio Carlos Scartezini, que, — junto com Elder Rocha Lima, Ézio Pires e José Helder de Souza eram a armação do grande leque de amigos que ele tinha em Brasília — foi um dos mentores da entrevista do Godoy ao Jornal Opção, em que ele depõe com lucidez sobre a guerrilha de Trombas e Formoso, e seus desdobramentos na Revolução de 64:</p>

<p id="wx30">“Com o golpe de 64, o regime militar resolveu abrir inquérito sobre For-moso, uma coisa do passado. E nessa época eu estava advogando (em Brasília), não queria saber de pegar em armas. Tanto que, quando começou a se falar em resistência armada ao novo regime, em Brasília; eu me opus frontalmente. Costumava dizer pa-ra os companheiros: a esquerda radical vai levar a direita radical ao comando do re-gime. Para mim, era claro. A direita radical não iria entregar o poder com o Costa e Silva. Queria continuar. Faltava o pretexto. Então, a esquerda radical apareceu: eu me apresento, com a guerrilha. Aí inventaram a Guerrilha do Araguaia, uma aventura que não significou nada, uma porcaria, mas que resultou numa coisa horrenda. Depois disso, já no tempo do general Ernesto Geisel, começaram a chegar em nós. Era uma limpeza de área”.</p>

<p id="wx31">E teve repercussões em sua vida. Até hoje, sua família briga com o seu processo na Comissão de Anistia.</p>

<p id="wx32">Complementa a sua bibliografia: Aqui é a terra (<a href="/wpt/Editora_Civiliza%C3%A7%C3%A3o_Brasileira" class="new" title="Editora Civilização Brasileira" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Editora_Civilização_Brasileira" id="wx33">Editora Civilização Brasileira</a>/Editora Orien-te, 1980), que reúne os dois primeiros livros de poemas e o inédito A Casa do viramundo, que refle-te a atmosfera do regime militar e da Guerra Fria; Entre hinos e bandeiras (1985); Os morcegos (1987); Os dinossauros dos sete mares (1988); Florismundo Periquito (1990), contos e novela, que ele revisava na ocasião de sua morte com o fito de dar continuidade à publicação das obras completas; O flautista e o mundo sol verde e vermelho (1994); Aprendiz de feiticeiro (1997), artigos de crítica – estes últimos pela Thesaurus Editora.</p>

<p id="wx34">Com a sua ausência, dificilmente será recuperada uma maneira integradora de ver parte da história da região Centro-Oeste, pois levou consigo fatos prodigiosos. Estavam registrados em sua memória, e esta não se repetirá tão fácil com a mesma grandeza. Nenhum outro produzirá com a mesma pureza e a mesma autenticidade, sem cair no simplismo, no folclórico, no regionalismo, no puro pieguismo. A sua poesia não deve ser reduzida às dimensões históricas do bairrismo goiano ou brasiliense – já que é usual empurrar para a expressividade da região do autor a obra que começa a incomodar a nacionalidade. Mas é impossível negar a poeticidade de José Godoy Garcia, que, por carregar a intimidade de um universo humano em crise, terá a obrigatoriedade de ser aceita, propagada como a aurora pelo mundo, para ampliar com a sua claridade o dia do homem.</p>
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