<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xmlns:wx="http://ilps.science.uva.nl/WikiXML/wx" xml:lang="pt" lang="pt">
<head>
<title>Manuel da Silva Coutinho</title>
<meta name="wx_namespace" content="0"/>
<meta name="wx_pagename" content="Manuel_da_Silva_Coutinho"/>
<meta name="wx_page_id" content="277300"/>
</head>
<body>
<div id="wx_article">
<wx:section level="1" title="Manuel da Silva Coutinho" id="wxsec1"><h1 class="pagetitle" id="wx1">Manuel da Silva Coutinho</h1>

<p id="wx2"><b id="wx3">Manuel da Silva Coutinho</b> (<a href="/wpt/Santar%C3%A9m_%28Portugal%29" title="Santarém (Portugal)" wx:linktype="known" wx:pagename="Santarém_(Portugal)" wx:page_id="19290" id="wx4">Santarém</a>, <a href="/wpt/1541" title="1541" wx:linktype="known" wx:pagename="1541" wx:page_id="28204" id="wx5">1541</a> – <a href="/wpt/Angra_do_Hero%C3%ADsmo" title="Angra do Heroísmo" wx:linktype="known" wx:pagename="Angra_do_Heroísmo" wx:page_id="5926" id="wx6">Angra</a>, <a href="/wpt/13_de_Agosto" title="13 de Agosto" wx:linktype="known" wx:pagename="13_de_Agosto" wx:page_id="1987" id="wx7">13 de Agosto</a> de <a href="/wpt/1583" title="1583" wx:linktype="known" wx:pagename="1583" wx:page_id="28239" id="wx8">1583</a>), <a href="/wpt/Conde_de_Torres_Vedras" title="Conde de Torres Vedras" wx:linktype="known" wx:pagename="Conde_de_Torres_Vedras" wx:page_id="1494981" id="wx9">conde de Torres Vedras</a> (por D. António), mais conhecido por <i id="wx10"><b id="wx11">conde Manuel da Silva</b></i>, foi o principal apoiante de D. <a href="/wpt/Ant%C3%B3nio_I_de_Portugal" title="António I de Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="António_I_de_Portugal" wx:page_id="37023" id="wx12">António, Prior do Crato</a> entre a aristocracia portuguesa. Acompanhou o Prior do Crato no exílio para França, tendo depois sido seu lugar-tenente na ilha <a href="/wpt/Terceira" title="Terceira" wx:linktype="known" wx:pagename="Terceira" wx:page_id="1855" id="wx13">Terceira</a> até à submissão da ilha a <a href="/wpt/Filipe_II_de_Espanha" title="Filipe II de Espanha" wx:linktype="known" wx:pagename="Filipe_II_de_Espanha" wx:page_id="18184" id="wx14">Filipe II de Espanha</a> na sequência do <a href="/wpt/Desembarque_da_Ba%C3%ADa_das_M%C3%B3s" title="Desembarque da Baía das Mós" wx:linktype="known" wx:pagename="Desembarque_da_Baía_das_Mós" wx:page_id="270603" id="wx15">desembarque da Baía das Mós</a>. Feito prisioneiro, foi decapitado por ordem de D. <a href="/wpt/%C3%81lvaro_de_Baz%C3%A1n" title="Álvaro de Bazán" wx:linktype="known" wx:pagename="Álvaro_de_Bazán" wx:page_id="186217" id="wx16">Álvaro de Bazán</a>, marquês de Santa Cruz de Mudela.</p>

<div id="wx_toc"/>

<a id="Biografia" name="Biografia"/>
<wx:section level="2" title="Biografia" id="wxsec2"><h2 id="wx17">Biografia</h2>

<p id="wx18">Manuel da Silva Coutinho, nasceu em <a href="/wpt/Santar%C3%A9m_%28Portugal%29" title="Santarém (Portugal)" wx:linktype="known" wx:pagename="Santarém_(Portugal)" wx:page_id="19290" id="wx19">Santarém</a>, no ano de <a href="/wpt/1541" title="1541" wx:linktype="known" wx:pagename="1541" wx:page_id="28204" id="wx20">1541</a>, no seio de uma família ilustre, pois descendia dos senhores da <a href="/wpt/Senhor_da_Chamusca" class="new" title="Senhor da Chamusca" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Senhor_da_Chamusca" id="wx21">Chamusca</a> e <a href="/wpt/Senhor_de_Ulma" class="new" title="Senhor de Ulma" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Senhor_de_Ulma" id="wx22">Ulma</a>, famílias ligadas à alta aristocracia portuguesa e castelhana. Seu avô materno era Rui Dias de Sousa, por antonomásia o <i id="wx23">Cid</i>, o valente alcaide que morreu nas fronteiras de África. Seu pai, Brás da Silva, comendador de <a href="/wpt/Castelejo" title="Castelejo" wx:linktype="known" wx:pagename="Castelejo" wx:page_id="11006" id="wx24">Castelejo</a>, é o bravo de quem fala <a href="/wpt/Dami%C3%A3o_de_G%C3%B3is" title="Damião de Góis" wx:linktype="known" wx:pagename="Damião_de_Góis" wx:page_id="109088" id="wx25">Damião de Góis</a> na <i id="wx26">Crónica de D. Manuel</i>.</p>

<p id="wx27">Não participou na expedição que teve como desfecho a <a href="/wpt/Batalha_de_Alc%C3%A1cer_Quibir" title="Batalha de Alcácer Quibir" wx:linktype="known" wx:pagename="Batalha_de_Alcácer_Quibir" wx:page_id="162665" id="wx28">batalha de Alcácer Quibir</a>, tendo optado por permanecer em <a href="/wpt/Portugal" title="Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="Portugal" wx:page_id="1480" id="wx29">Portugal</a>, aparentemente por razões financeiras e familiares.</p>

<a id="A_ades.C3.A3o_ao_partido_antonino" name="A_ades.C3.A3o_ao_partido_antonino"/>
<wx:section level="3" title="A adesão ao partido antonino" id="wxsec4"><h3 id="wx30">A adesão ao partido antonino</h3>

<p id="wx31">Sendo fronteiro-mor de Santarém, desencadeada a <a href="/wpt/Crise_de_sucess%C3%A3o_de_1580" title="Crise de sucessão de 1580" wx:linktype="known" wx:pagename="Crise_de_sucessão_de_1580" wx:page_id="132441" id="wx32">crise de sucessão de 1580</a>, é dos primeiros e mais eloquentes partidários do filho de Violante Gomes, D. António, Prior do Crato. Nas <a href="/wpt/Cortes_de_Lisboa_de_1579" title="Cortes de Lisboa de 1579" wx:linktype="known" wx:pagename="Cortes_de_Lisboa_de_1579" wx:page_id="132400" id="wx33">cortes de Lisboa de 1579</a> e nas de <a href="/wpt/Cortes_de_Almeirim_de_1580" title="Cortes de Almeirim de 1580" wx:linktype="known" wx:pagename="Cortes_de_Almeirim_de_1580" wx:page_id="132410" id="wx34">Almeirim (1580)</a>, convocadas pelo <a href="/wpt/Henrique_I_de_Portugal" title="Henrique I de Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="Henrique_I_de_Portugal" wx:page_id="16750" id="wx35">cardeal-rei</a>, advoga estrenuamente os direitos de D. António. Está com ele em Santarém na qualidade de fronteiro-mor quando o aclamam rei, sendo por isso perseguido pelos governadores do reino.</p>

<p id="wx36">Quando o povo de Santarém vacila em sustentar o grito que vitoriara, Manuel da Silva força os seus conterrâneos, com a espada na mão, a manterem a sua adesão à causa <a href="/wpt/Ant%C3%B3nio_I_de_Portugal" title="António I de Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="António_I_de_Portugal" wx:page_id="37023" id="wx37">antonina</a>.</p>

<p id="wx38">Tendo acompanhado D. António no seu périplo pelo país, participa na <a href="/wpt/Batalha_de_Alc%C3%A2ntara" title="Batalha de Alcântara" wx:linktype="known" wx:pagename="Batalha_de_Alcântara" wx:page_id="56354" id="wx39">batalha de Alcântara</a> com patente de general, é do grupo dos fugitivos que seguem o Prior ferido e derrotado na sua fuga para norte.</p>

<a id="A_eleva.C3.A7.C3.A3o_a_conde_de_Torres_Vedras" name="A_eleva.C3.A7.C3.A3o_a_conde_de_Torres_Vedras"/>
</wx:section><wx:section level="3" title="A elevação a conde de Torres Vedras" id="wxsec5"><h3 id="wx40">A elevação a conde de Torres Vedras</h3>

<p id="wx41">Durante este período, foi feito <a href="/wpt/Conde_de_Torres_Vedras" title="Conde de Torres Vedras" wx:linktype="known" wx:pagename="Conde_de_Torres_Vedras" wx:page_id="1494981" id="wx42">conde de Torres Vedras</a>, quando o quando o legítimo conde de Torres Vedras, D. Martim Soares de Alarcão, se mostrou hostil a D. António, acastelando-se contra ele. Juntamente com o título, o Prior do Crato deu-lhe a casa do conde rebelde — posse que nunca Manuel da Silva fruiu. Foi já feito conde que acompanhou o Prior do Crato na sua retirada para França. Embora o título não tenha sido registado, e não seja aceite como válido pela generalidade dos genealogistas, foi como <i id="wx43">conde Manuel da Silva</i> que passou à História.</p>

<a id="A_pris.C3.A3o_da_fam.C3.ADlia" name="A_pris.C3.A3o_da_fam.C3.ADlia"/>
</wx:section><wx:section level="3" title="A prisão da família" id="wxsec6"><h3 id="wx44">A prisão da família</h3>

<p id="wx45">A sua notoriedade enquanto defensor do partido antonino foi tal que o <a href="/wpt/Duque_de_Alba" title="Duque de Alba" wx:linktype="known" wx:pagename="Duque_de_Alba" wx:page_id="1504100" id="wx46">duque de Alba</a>, logo que entrou em <a href="/wpt/Lisboa" title="Lisboa" wx:linktype="known" wx:pagename="Lisboa" wx:page_id="1165" id="wx47">Lisboa</a>, mandou prender a família de Manuel da Silva. O encarregado foi um oficial de guerra português, chamado Jerónimo de Mendonça, com cinquenta arcabuzeiros, seis cavalos e três carroças. A esposa D. Maria de Vilhena, com três filhos menores, foi presa na <a href="/wpt/Azinhaga" title="Azinhaga" wx:linktype="known" wx:pagename="Azinhaga" wx:page_id="113316" id="wx48">Azinhaga</a> onde se tinha refugiado. Não se lhe consentiu que se preparasse. Foram levados a <a href="/wpt/Arronches" title="Arronches" wx:linktype="known" wx:pagename="Arronches" wx:page_id="6194" id="wx49">Arronches</a>, e dali a <a href="/wpt/Ciudad_Real" title="Ciudad Real" wx:linktype="known" wx:pagename="Ciudad_Real" wx:page_id="159139" id="wx50">Ciudad Real</a>, onde os deixaram numa prisão apertada.</p>

<p id="wx51">Simultaneamente era preso em Lisboa um frade <a href="/wpt/Cr%C3%BAzio" title="Crúzio" wx:linktype="known" wx:pagename="Crúzio" wx:page_id="277859" id="wx52">crúzio</a>, Frei Simpliciano da Silva, irmão do conde de Torres Vedras. Foi encarcerado em <a href="/wpt/Espanha" title="Espanha" wx:linktype="known" wx:pagename="Espanha" wx:page_id="785" id="wx53">Espanha</a>, e daí fugiu para <a href="/wpt/Fran%C3%A7a" title="França" wx:linktype="known" wx:pagename="França" wx:page_id="827" id="wx54">França</a> onde morreu.</p>

<a id="O_ex.C3.ADlio_e_a_nomea.C3.A7.C3.A3o_para_lugar-tenente_nos_A.C3.A7ores" name="O_ex.C3.ADlio_e_a_nomea.C3.A7.C3.A3o_para_lugar-tenente_nos_A.C3.A7ores"/>
</wx:section><wx:section level="3" title="O exílio e a nomeação para lugar-tenente nos Açores" id="wxsec7"><h3 id="wx55">O exílio e a nomeação para lugar-tenente nos Açores</h3>

<p id="wx56">Manuel da Silva Coutinho foi um dos indefectíveis que acompanhou o Prior do Crato no exílio para <a href="/wpt/Londres" title="Londres" wx:linktype="known" wx:pagename="Londres" wx:page_id="1197" id="wx57">Londres</a> e <a href="/wpt/Fran%C3%A7a" title="França" wx:linktype="known" wx:pagename="França" wx:page_id="827" id="wx58">França</a>. Com o <a href="/wpt/Conde_de_Vimioso" title="Conde de Vimioso" wx:linktype="known" wx:pagename="Conde_de_Vimioso" wx:page_id="186279" id="wx59">conde de Vimioso</a> e Diogo Botelho, era um os íntimos validos do prior do Crato.</p>

<p id="wx60">Quando D. António recebeu notícias de que a situação na <a href="/wpt/Terceira" title="Terceira" wx:linktype="known" wx:pagename="Terceira" wx:page_id="1855" id="wx61">Terceira</a>, o último bastião onde a sua realeza era reconhecida, era de grande instabilidade, com um número crescente de aristocratas a pretender aceitar as propostas de rendição honrosa que lhes eram feitas por <a href="/wpt/Filipe_II_de_Espanha" title="Filipe II de Espanha" wx:linktype="known" wx:pagename="Filipe_II_de_Espanha" wx:page_id="18184" id="wx62">Filipe II de Espanha</a>, resolveu nomear Manuel da Silva Coutinho para o cargo de de seu tenente-rei nos <a href="/wpt/A%C3%A7ores" title="Açores" wx:linktype="known" wx:pagename="Açores" wx:page_id="385" id="wx63">Açores</a>, na qualidade de regedor das armas e das justiças, tendo por missão pôr termo à crescente desordem por ali lavrava, por desinteligências da nobreza com o corregedor <a href="/wpt/Cipri%C3%A3o_de_Figueiredo" title="Ciprião de Figueiredo" wx:linktype="known" wx:pagename="Ciprião_de_Figueiredo" wx:page_id="278400" id="wx64">Ciprião de Figueiredo</a> e contendas entre os governadores das ilhas de <a href="/wpt/Ilha_de_S%C3%A3o_Miguel" title="Ilha de São Miguel" wx:linktype="known" wx:pagename="Ilha_de_São_Miguel" wx:page_id="1762" id="wx65">São Miguel</a> e <a href="/wpt/Terceira" title="Terceira" wx:linktype="known" wx:pagename="Terceira" wx:page_id="1855" id="wx66">Terceira</a>, que tinham aderido a partidos opostos.</p>

<p id="wx67">De facto a situação em Angra, não obstante o desbarate de D. <a href="/wpt/Pedro_de_Valdez" title="Pedro de Valdez" wx:linktype="known" wx:pagename="Pedro_de_Valdez" wx:page_id="1495130" id="wx68">Pedro de Valdez</a> na <a href="/wpt/Batalha_da_Salga" title="Batalha da Salga" wx:linktype="known" wx:pagename="Batalha_da_Salga" wx:page_id="268854" id="wx69">batalha da Salga</a> e as enérgicas ferocidades de Ciprião na carnificina dos espanhóis, era muito grave, vivendo-se um clima de suspeição generalizada, com constantes boatos de traição. A perseguição aos suspeitos de parcialidade a favor de Filipe II, verdadeira ou imaginada, associada ao medo de uma invasão eminente por parte das poderosas forças de Castela que estavam estacionadas em São Miguel, tinha quebrado definitivamente a unidade em torno da causa de D. António, e tornava cada vez mais difícil a tarefa do <a href="/wpt/Corregedor" title="Corregedor" wx:linktype="known" wx:pagename="Corregedor" wx:page_id="222123" id="wx70">corregedor</a>.</p>

<a id="O_ac.C3.A7.C3.A3o_nos_A.C3.A7ores" name="O_ac.C3.A7.C3.A3o_nos_A.C3.A7ores"/>
</wx:section><wx:section level="3" title="O acção nos Açores" id="wxsec8"><h3 id="wx71">O acção nos Açores</h3>

<p id="wx72">Em Fevereiro de <a href="/wpt/1582" title="1582" wx:linktype="known" wx:pagename="1582" wx:page_id="28238" id="wx73">1582</a> desembarcou em Angra o conde de Torres Vedras. Enquanto se lhe preparava o palácio de D. <a href="/wpt/Crist%C3%B3v%C3%A3o_de_Moura" title="Cristóvão de Moura" wx:linktype="known" wx:pagename="Cristóvão_de_Moura" wx:page_id="189506" id="wx74">Cristóvão de Moura</a>, residiu no <a href="/wpt/Convento_de_S._Francisco_de_Angra" class="new" title="Convento de S. Francisco de Angra" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Convento_de_S._Francisco_de_Angra" id="wx75">convento de S. Francisco de Angra</a>. Tinha grande equipagem: vinte a vinte e cinco cavalos, um aparato real, com escolta de ingleses e franceses. Estava no vigor da vida; teria quarenta anos; <i id="wx76">muito caroável de mulheres e folguedos, muito namorado</i>, diz a <i id="wx77">Relação</i> de 1611 trasladada por <a href="/wpt/Francisco_Ferreira_Drummond" title="Francisco Ferreira Drummond" wx:linktype="known" wx:pagename="Francisco_Ferreira_Drummond" wx:page_id="69385" id="wx78">Francisco Ferreira Drummond</a> nos <i id="wx79">Anais da Ilha Terceira</i>.</p>

<p id="wx80">O ser <i id="wx81">muito namorado</i> não lhe diminuia a severidade. Logo que tomou o pulso dos homens e das coisas, começou por impedir que saíssem pessoas e mercadorias da <a href="/wpt/Terceira" title="Terceira" wx:linktype="known" wx:pagename="Terceira" wx:page_id="1855" id="wx82">Terceira</a>, por serem estas e aquelas necessárias à defesa. Depois, fez sentenciar os presos que o seu antecessor na justiça, Ciprião de Figueiredo, culpara. Um deles, o velho João de Bettencourt, que tinha dado vivas a <a href="/wpt/Filipe_II_de_Castela" title="Filipe II de Castela" wx:linktype="known" wx:pagename="Filipe_II_de_Castela" wx:page_id="192948" id="wx83">Filipe II de Castela</a>, insinuado pelos <a href="/wpt/Jesu%C3%ADta" title="Jesuíta" wx:linktype="known" wx:pagename="Jesuíta" wx:page_id="23036" id="wx84">jesuítas</a>, com quem já encanecido andara estudando, quis provar que estava mentecapto quando aclamou o rei castelhano. Não lhe aceitaram os embargos nem a grande quantia que a esposa oferecia pelo perdão. Foi degolado em Março de <a href="/wpt/1582" title="1582" wx:linktype="known" wx:pagename="1582" wx:page_id="28238" id="wx85">1582</a>. O filho ganhou com isso copiosas mercês de Filipe II após a queda da ilha.</p>

<p id="wx86">Foi também sentenciado à morte Gaspar Homem, porque viera com embaixada de <a href="/wpt/Reino_de_Castela" title="Reino de Castela" wx:linktype="known" wx:pagename="Reino_de_Castela" wx:page_id="15739" id="wx87">Castela</a>, quando lhe era defesa a entrada na ilha, por interdição eclesiástica, visto haver-se negado a casar com Ana Gaspar, filha de Gonçalo Feio, homem nobre, Ergueu-se a forca, e o padecente ia já no caminho, e ouvia as exortações dos frades, quando a senhora repudiada foi pedir ao conde que lhe entregasse Gaspar Homem que já queria casar com ela. Com instantes lágrimas, obteve o perdão do esposo, correu ao local do patíbulo e colheu nos braços o noivo quando o algoz lhe ia lançar a corda. Casaram, viveram muitos anos e propagaram-se. Gaspar Homem, em testemunho da sua gratidão ao lugar-tenente de D. António, assim que o <a href="/wpt/Marqu%C3%AAs_de_Santa_Cruz_de_Mudela" title="Marquês de Santa Cruz de Mudela" wx:linktype="known" wx:pagename="Marquês_de_Santa_Cruz_de_Mudela" wx:page_id="186222" id="wx88">marquês de Santa Cruz de Mudela</a> tomou a ilha, passou-se para os espanhóis, e, alegando que esteve preso, obteve <a href="/wpt/Ordem_de_Cristo" title="Ordem de Cristo" wx:linktype="known" wx:pagename="Ordem_de_Cristo" wx:page_id="38664" id="wx89">hábito de Cristo</a> e tença.</p>

<p id="wx90">Neste episódio, Manuel da Silva portara-se gentilmente. Se sobrevivesse a Gaspar Homem, teria de se arrepender do generoso acto, assim como se arrependeu de confiar-se cordialmente em João Dias do Carvalhal, fidalgo abastado, que pedindo-lhe licença para ir ver el-rei D. António — quando a ninguém era concedido sair da ilha — obteve-a, foi a Lisboa prestar obediência a Filipe e pedir-lhe o hábito de Cristo. Num ímpeto de ira, o conde mandou prender a mulher do traidor, e obrigou-a a resgatar-se como cativa. Desde este lance, o regedor tornou-se violento, vigilantíssimo e por vezes cruel.</p>

<p id="wx91">Tratou de cunhar moeda com a prata e ouro que andou pessoalmente pedindo às portas dos amigos e dos adversários. Obteve rica baixela e muitas cadeias de ouro. O padre <a href="/wpt/Ant%C3%B3nio_Cordeiro" title="António Cordeiro" wx:linktype="known" wx:pagename="António_Cordeiro" wx:page_id="182031" id="wx92">António Cordeiro</a>, apoiado em tradições coevas, diz que Manuel da Silva se apropriou das cadeias que ninguém viu na Casa da Moeda para se fundirem. A <i id="wx93">Relação</i> que <a href="/wpt/Francisco_Ferreira_Drummond" title="Francisco Ferreira Drummond" wx:linktype="known" wx:pagename="Francisco_Ferreira_Drummond" wx:page_id="69385" id="wx94">Francisco Ferreira Drummond</a> consulta favorece esta desonrosa afirmativa que nenhuns documentos permitem que eu impugne, e até certo ponto o valioso espólio do conde confirma.</p>

<p id="wx95">Tornou-se muito popular o fidalgo: dava postos militares a oficiais mecânicos, hábitos de Santiago e Avis a artífices e pilotos, relaxou ao povo liberdades que aos olhos da aristocracia redundavam em aviltamento dos nobres. A arraia-miúda vingava-se das passadas opressões. Surdiu daí desfalcar-se o partido de D. António de alguns fidalgos que preferiam o despotismo do rei espanhol à soberania do povo. Além disso o conde seduzia com afagos ou forçava com violências as mulheres. Se merece fé a <i id="wx96">Relação</i> de 1611, o pai de uma moça violentada morreu de dor.</p>

<p id="wx97">Os presos eram muitos; mas Manuel da Silva Coutinho não condenou à morte senão João de Bettencourt como amostra do seu sistema de governar. Os padres andavam abandados. Uns pregavam por D. Filipe, outros por D. António. O conde deixava-os pregar à vontade, exceptuados os <a href="/wpt/Jesu%C3%ADta" title="Jesuíta" wx:linktype="known" wx:pagename="Jesuíta" wx:page_id="23036" id="wx98">jesuítas</a>, que estavam enclausurados e incomunicáveis, desde que <a href="/wpt/Cipri%C3%A3o_de_Figueiredo" title="Ciprião de Figueiredo" wx:linktype="known" wx:pagename="Ciprião_de_Figueiredo" wx:page_id="278400" id="wx99">Ciprião de Figueiredo</a> os entaipara a pedra e cal. Esta excepção acusa o medo que o conde tinha da eloquência dos jesuítas; ao passo que os <a href="/wpt/Franciscano" title="Franciscano" wx:linktype="known" wx:pagename="Franciscano" wx:page_id="94281" id="wx100">franciscanos</a>, <a href="/wpt/Trinit%C3%A1rio" class="new" title="Trinitário" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Trinitário" id="wx101">trinitários</a> e <a href="/wpt/Graciano" title="Graciano" wx:linktype="known" wx:pagename="Graciano" wx:page_id="202348" id="wx102">gracianos</a>, letrados de nome, tinham plena faculdade de provar à face da Bíblia que D. António ou D. Filipe eram reis legítimos de Portugal — o que uns e outros satisfaziam a preceito, demonstrando que a visão de Esdras se entendia com os monarcas lusitanos.</p>

<p id="wx103">O mais esturrado antagonista, um devasso Frei Simão, indigitou como filipista certo Martim Simão de Faria, Este fidalgo correu de espada nua sobre o frade, que se salvou no convento. O conde de Torres Vedras, em vez de punir o agressor, parece que se riu do caso por conhecer a libertinagem do pregador. Desde este episódio burlesco, os oradores sagrados, responsáveis a pagar com as costas o desbocamento das línguas, fecharam as bocas e as Bíblias.</p>

<p id="wx104">D. António chegou à Terceira em Julho de <a href="/wpt/1582" title="1582" wx:linktype="known" wx:pagename="1582" wx:page_id="28238" id="wx105">1582</a>, refugiando-se da armada de D. <a href="/wpt/%C3%81lvaro_de_Baz%C3%A1n" title="Álvaro de Bazán" wx:linktype="known" wx:pagename="Álvaro_de_Bazán" wx:page_id="186217" id="wx106">Álvaro de Bazán</a>, logo sendo informado da derrota das suas forças na <a href="/wpt/Batalha_Naval_de_Vila_Franca" title="Batalha Naval de Vila Franca" wx:linktype="known" wx:pagename="Batalha_Naval_de_Vila_Franca" wx:page_id="125734" id="wx107">batalha naval de Vila Franca do Campo</a> e da morte do seu amigo e condestável <a href="/wpt/Conde_de_Vimioso" title="Conde de Vimioso" wx:linktype="known" wx:pagename="Conde_de_Vimioso" wx:page_id="186279" id="wx108">conde de Vimioso</a>. Encerrou-se por oito dias, e saiu depois com o conde de Torres Vedras e os do seu conselho a visitar D. <a href="/wpt/Violante_do_Canto" title="Violante do Canto" wx:linktype="known" wx:pagename="Violante_do_Canto" wx:page_id="604963" id="wx109">Violante do Canto</a>, sua partidária muito serviçal de dinheiros, e a visitar ermidas onde ouvia missas, e religiosas franciscanas fiéis à sua causa.</p>

<p id="wx110">Depois encerrou-se por mais doze dias, com grande tristeza e desalento. Findo o qual prazo de luto, foi à <a href="/wpt/Vila_de_S%C3%A3o_Sebasti%C3%A3o" title="Vila de São Sebastião" wx:linktype="known" wx:pagename="Vila_de_São_Sebastião" wx:page_id="5946" id="wx111">vila de São Sebastião</a> ver o campo onde tinha ocorrido a <a href="/wpt/Batalha_da_Salga" title="Batalha da Salga" wx:linktype="known" wx:pagename="Batalha_da_Salga" wx:page_id="268854" id="wx112">batalha da Salga</a>; passou depois à <a href="/wpt/Praia_da_Vit%C3%B3ria" title="Praia da Vitória" wx:linktype="known" wx:pagename="Praia_da_Vitória" wx:page_id="18541" id="wx113">Praia</a>, onde se hospedou no Convento de S. Francisco.</p>

<p id="wx114">Fez então uma boa acção D. António: mandou desentaipar os jesuítas, e convidou os fugitivos a recolherem da vida fragueira que levavam pelos matos, com a certeza de que os seus haveres lhes seriam poupados ao confisco.</p>

<p id="wx115">Depois, ocorreram os suplícios de António de Carvalho e <a href="/wpt/Duarte_de_Castro_do_Rio" class="new" title="Duarte de Castro do Rio" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Duarte_de_Castro_do_Rio" id="wx116">Duarte de Castro do Rio</a>, acusados de traição e de pretenderem assasinar o rei. Manuel da Silva deu expediente a estes episódios, como lhe cumpria; e, conquanto previsse nos sustos do prior o desastre final da sua causa, manteve-se fiel à desgraça com heroísmo raro e apenas imitado de poucos fautores do neto de el-rei D. Manuel.</p>

<p id="wx117">Por esse tempo, quando já D. António se fizera de vela para França, o príncipe de Eboli e duque de Pastrana, Rui Gomes da Silva, primo co-irmão de Manuel da Silva Coutinho, ofereceu-lhe em nome de Filipe II o título de marquês, trinta mil cruzados em dinheiro e o governo da ilha, se ele a entregasse. Manuel da Silva Coutinho leu a carta em presença de testemunhas, rasgou-a e enviou ao príncipe uma resposta espartana. À altura da sua lealdade estava também o excesso de crueza, recrudescente a par e passo que as esperanças se esvaíam.</p>

<p id="wx118">Escondia, ainda assim, os mínimos vislumbres de desanimação. Estadeava-se como príncipe com préstitos bizarros de ingleses e franceses; arvorara general um sobrinho imberbe, que morreu depois valorosamente no seu posto durante o <a href="/wpt/Desembarque_da_Ba%C3%ADa_das_M%C3%B3s" title="Desembarque da Baía das Mós" wx:linktype="known" wx:pagename="Desembarque_da_Baía_das_Mós" wx:page_id="270603" id="wx119">desembarque da Baía das Mós</a>; e, como destro cavaleiro que era, desbaratava o tempo em exercícios equestres.</p>

<p id="wx120">Por esse tempo chegou à Terceira, portador de uma missiva de Filipe II de Castela, Amador de Vera, que Drummond e Rebelo da Silva escrevem incorrectamente Vieira. Vendeu-se ao regedor, comprometendo-se a denunciar-lhe pessoas da ilha dedicadas a Filipe.</p>

<p id="wx121">Enquanto Amador de Vera cumpria os deveres estipulados no contrato, espiando as vítimas, ordenou Manuel da Silva Coutinho que se organizasse uma pequena armada, deu o comando a Manuel Serradas, mandou-o a corso, à conquista das ilhas de <a href="/wpt/Cabo_Verde" title="Cabo Verde" wx:linktype="known" wx:pagename="Cabo_Verde" wx:page_id="537" id="wx122">Cabo Verde</a>, que estavam por Castela, e ao saque da fortaleza de <a href="/wpt/Arguim" title="Arguim" wx:linktype="known" wx:pagename="Arguim" wx:page_id="185230" id="wx123">Arguim</a>. Eram dez as naus: despojaram facilmente Arguim e, depois de breve conflito, saquearam Cabo Verde. Destarte acirrava o conde de Torres Vedras as hostilidades dos portugueses à causa do prior do Crato.</p>

<p id="wx124">Entretanto, Amador de Vera denunciava homens que haviam servido dedicadamente D. António. O conde reconheceu a infâmia da delação, chamou à sua presença dois dos denunciados já presos, e lançou-lhes o hábito de Cristo com cem mil-réis de tença. Ao mesmo tempo assistia aos tratos dados a um velho, e mandava-o depois arrastar e esquartejar por crime de rebelião. Dizem relações coevas que nunca acedeu aos pedidos para retirar de um poste a cabeça do supliciado.</p>

<p id="wx125">Num análogo lance de severidade, mostrou o conde regedor que, de facto, as mulheres podiam muito com ele. Estava preso um Pereira de Lacerda, ancião rico e parcial de Castela, não só suspeito mas convicto de conspirador. Manuel da Silva mandou-o submeter à tortura. Soube-se no Convento da Esperança, cuja irmã era abadessa, que o velho ia já a caminho do suplício. Saíram as freiras à rua a abraçar o padecente; e, no entanto, escrevia-se no mosteiro uma carta ao conde a suplicar-lhe o perdão de Álvaro Pereira. Pra a fazer chegar às mãoas de Manuel da Silva Coutinho, que se fechara no palácio para esquivar-se a rogos, a portadora da carta saltou à cerca dos franciscanos e pôde insinuar-se nos aposentos do lugar-tenente de D. António. O espantado conde leu a súplica, e disse: <i id="wx126">Ide dizer às Senhoras Madres que lhes concedo quanto me pedem, e muito mais farei por amor delas</i>.</p>

<p id="wx127">Manuel da Silva Coutinho foi acusado de ter desprezado a ciência militar e os alvitres de <a href="/wpt/Aymar_de_Clermont_de_Chaste" title="Aymar de Clermont de Chaste" wx:linktype="known" wx:pagename="Aymar_de_Clermont_de_Chaste" wx:page_id="327447" id="wx128">Aymar de Clermont de Chaste</a>, o <a href="/wpt/Comendador_de_Chaste" title="Comendador de Chaste" wx:linktype="known" wx:pagename="Comendador_de_Chaste" wx:page_id="327490" id="wx129">comendador de Chaste</a>, enviado à frente de mil e seiscentos soldados franceses para defender a Terceira, ameaçada novamente pela poderosa armada do marquês de Santa Cruz. Pode. contudo, alegar-se que ele desconfiava da lealdade dos franceses, desde que, no ano anterior, vira que algumas galeras fugiram do mar de Vila Franca sem pelejarem.</p>

<p id="wx130">Aparentemente suspeitava que o rei de França, tendo como perdida a causa de D. António I, tratava de apossar-se insidiosamente dos Açores para mais tarde tentar a conquista do Brasil. Estes receios eram comuns aos residentes na ilha, e os castelhanos não perdiam lanço de os incutir, associando a dissidência religiosa do calvinismo à pérfida aliança dos franceses. Além disso, os soldados do comendador de Chastes saltaram na Terceira como quadrilhas de piratas da ralé mais faminta. Atacavam nos arrabaldes as residências dos lavradores, e agiam com a maior indisciplina, amotinado-se constantemente, envolvendo-se em duelos e fabricando moeda falsa.</p>

<p id="wx131">A <a href="/wpt/3_de_Julho" title="3 de Julho" wx:linktype="known" wx:pagename="3_de_Julho" wx:page_id="9623" id="wx132">3 de Julho</a> de <a href="/wpt/1583" title="1583" wx:linktype="known" wx:pagename="1583" wx:page_id="28239" id="wx133">1583</a> estava novamente D. <a href="/wpt/%C3%81lvaro_de_Baz%C3%A1n" title="Álvaro de Bazán" wx:linktype="known" wx:pagename="Álvaro_de_Bazán" wx:page_id="186217" id="wx134">Álvaro de Bazán</a> à vista dos Açores com uma grande armada. O conde desenvolveu a maior energia na distribuição das forças nos pontos mais acessíveis. Nem sombra de desânimo lhe anuviou o aspecto, quando os cabos franceses dissimulavam pretextos de convenções preteridas para se esquivarem à morte dos seus cinquenta patrícios e fidalgos enforcados, no ano anterior, nas vergas da armada do mesmo almirante. Nestes transes de medo, a fidelidade de Manuel da Silva Coutinho foi segunda vez tentada por cartas do <a href="/wpt/Marqu%C3%AAs_de_Santa_Cruz_de_Mudela" title="Marquês de Santa Cruz de Mudela" wx:linktype="known" wx:pagename="Marquês_de_Santa_Cruz_de_Mudela" wx:page_id="186222" id="wx135">marquês de Santa Cruz de Mudela</a>. Ofereciam-lhe o título de marquês de juro e herdade, duas comendas, um lugar no paço para a filha e vinte mil cruzados para pagamento das suas dívidas. Contam historiadores coevos que Manuel da Silva, sem fazer alarde do oferecimento, dissera aos emissários: <i id="wx136">Afirmai ao marquês que eu antes de um ano hei-de pôr a minha lança em Madrid</i>.</p>

<p id="wx137">Desembarcaram os castelhanos na Baía das Mós, e apesar da bravura dos defensores, entre os quais se provou a lealdade dos franceses, não foi possível contê-los na costa. Manuel da Silva Coutinho correu àquele ponto com a maior força do exército, mas extemporaneamente. Tinha já que combater dezasseis mil homens disciplinados que duplicavam o número dos ilhéus. O general quis ainda assim com oito mil homens atacar o marquês, dispondo as forças de modo que o inimigo só pudesse salvar-se retrocedendo sobre o mar. Não lhe surtiu o plano.</p>

<p id="wx138">Manuel da Silva, considerando-se perdido, combinou com os capitães franceses a fuga. Conhecia as propostas vantajosas de D. Álvaro de Bazán aos chefes estrangeiros. O espanhol dava-lhes salvo-conduto, armas e navios que os transportassem a França. Lutar desesperadamente seria um heróico suicídio. Preparava-se para fugir na pequena caravela que preparara no <a href="/wpt/Porto_de_Pipas" title="Porto de Pipas" wx:linktype="known" wx:pagename="Porto_de_Pipas" wx:page_id="1716182" id="wx139">Porto de Pipas</a>, mas já a não encontrou.</p>

<a id="Pris.C3.A3o_e_decapita.C3.A7.C3.A3o" name="Pris.C3.A3o_e_decapita.C3.A7.C3.A3o"/>
</wx:section><wx:section level="3" title="Prisão e decapitação" id="wxsec9"><h3 id="wx140">Prisão e decapitação</h3>

<p id="wx141">Depois da <a href="/wpt/Desembarque_da_Ba%C3%ADa_das_M%C3%B3s" title="Desembarque da Baía das Mós" wx:linktype="known" wx:pagename="Desembarque_da_Baía_das_Mós" wx:page_id="270603" id="wx142">derrota na Baía das Mós</a>, cuja responsabilidade foi logo atribuída à sua cobardia, achou-se sozinho, perseguido pela população da ilha, que o culpava da situação em que se encontrava. Tentou uma fuga pelo porto dos <a href="/wpt/Biscoitos" title="Biscoitos" wx:linktype="known" wx:pagename="Biscoitos" wx:page_id="18543" id="wx143">Biscoitos</a>, na costa norte da ilha, mas a população opôs-se, destruindo as embarcações ali existentes.</p>

<p id="wx144">Manuel da Silva Coutinho achou-se assim encurralado na ilha, miserável, errando por matagais por espaço de treze dias, encavernando-se de noite e subindo de dia as escarpas das serras para se evadir à perseguição. Depois, vestiu-se de castelhano e misturou-se com as escoltas que o procuravam, a fim de poder embarcar-se na armada, refere a <i id="wx145">Relação</i> seguida por <a href="/wpt/Lu%C3%ADs_Augusto_Rebelo_da_Silva" title="Luís Augusto Rebelo da Silva" wx:linktype="known" wx:pagename="Luís_Augusto_Rebelo_da_Silva" wx:page_id="525981" id="wx146">Luís Augusto Rebelo da Silva</a>. São pormenores romanescos, em que entra uma mulata que o denunciou, e um diálogo assaz inepto da mulata com o preso. O que é certo é que um oficial espanhol, chamado Espínola, o aprisionou no dia <a href="/wpt/10_de_Agosto" title="10 de Agosto" wx:linktype="known" wx:pagename="10_de_Agosto" wx:page_id="10879" id="wx147">10 de Agosto</a> de <a href="/wpt/1583" title="1583" wx:linktype="known" wx:pagename="1583" wx:page_id="28239" id="wx148">1583</a>, rejeitando dez mil cruzados que ele oferecia para que o deixasse fugir.</p>

<p id="wx149">A populaça insultava-o quando o viu entrar em Angra no meio da escolta. Foi encarcerado no porão de uma galera e interrogado sobre as inteligências de D. <a href="/wpt/Ant%C3%B3nio_I_de_Portugal" title="António I de Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="António_I_de_Portugal" wx:page_id="37023" id="wx150">António</a> com a <a href="/wpt/Fran%C3%A7a" title="França" wx:linktype="known" wx:pagename="França" wx:page_id="827" id="wx151">França</a>. Conta-se que revelou o que ao marquês convinha saber mediante a tortura.</p>

<p id="wx152">Três dias depois, ao cair da tarde de <a href="/wpt/13_de_Agosto" title="13 de Agosto" wx:linktype="known" wx:pagename="13_de_Agosto" wx:page_id="1987" id="wx153">13 de Agosto</a> de <a href="/wpt/1583" title="1583" wx:linktype="known" wx:pagename="1583" wx:page_id="28239" id="wx154">1583</a>, saiu do navio para o cadafalso montado na Praça Velha da cidade de <a href="/wpt/Angra_do_Hero%C3%ADsmo" title="Angra do Heroísmo" wx:linktype="known" wx:pagename="Angra_do_Heroísmo" wx:page_id="5926" id="wx155">Angra</a>, onde um tudesco o degolou com a sua própria espada.</p>

<p id="wx156">Nas relações desta catástrofe não podiam deixar de intervir as piedosas exclamações do padecente, confessando as suas culpas, pedindo perdão aos espectadores e arrancando lágrimas até aos inimigos compadecidos. São lugares comuns em todas as tragédias desta natureza, cenas finais que trazem sempre a Divindade a colaborar no entrecho para que o remate se não confunda com os sucessos vulgares da espécie humana. <a href="/wpt/Ieronimo_de_Franchi_Conestaggio" title="Ieronimo de Franchi Conestaggio" wx:linktype="known" wx:pagename="Ieronimo_de_Franchi_Conestaggio" wx:page_id="279545" id="wx157">Jerónimo Conestágio</a> escreve que a dor dos circunstantes foi geral, porque Manuel da Silva nos últimos momentos falara animosamente, aceitando a morte como justo castigo de suas culpas. <a href="/wpt/Ant%C3%B3nio_de_Herrera" title="António de Herrera" wx:linktype="known" wx:pagename="António_de_Herrera" wx:page_id="197181" id="wx158">António de Herrera</a> e <a href="/wpt/Lu%C3%ADs_de_Bavia" class="new" title="Luís de Bavia" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Luís_de_Bavia" id="wx159">Luís de Bavia</a> não se lembram de tais discursos, naturalmente apócrifos.</p>

<p id="wx160">Manuel da Silva era de estatura mediana, reforçado, barbado, principiava a encanecer aos quarenta e dois anos, e era eloquente, de que dera testemunho nas juntas de Lisboa e cortes de Almeirim.</p>

<p id="wx161">Parece que o seu espólio na ilha era precioso. O seu secretário italiano Marco António entregara o tesouro a um capitão que lho extorquira depois de findo o terceiro dia de saque. O <a href="/wpt/Marqu%C3%AAs_de_Santa_Cruz_de_Mudela" title="Marquês de Santa Cruz de Mudela" wx:linktype="known" wx:pagename="Marquês_de_Santa_Cruz_de_Mudela" wx:page_id="186222" id="wx162">marquês de Santa Cruz de Mudela</a>, sabedor do caso, obrigou o capitão a repor o tesouro de que o marquês se assenhoreou. As relações e os cronistas não dizem as espécies, nem o valor aproximado. Se lá estavam as pulseiras e as correntes das mulheres da ilha Terceira, o marquês não as restituiu.</p>

<p id="wx163">Não é exacto ser engradada a cabeça de Manuel da Silva na gaiola de onde se tirou a de Melchior Afonso. O cadáver do decapitado foi enterrado com grande aparato e com todas as honras militares pelo exército castelhano.</p>

<p id="wx164">Para o <a href="/wpt/Ant%C3%B3nio_I_de_Portugal" title="António I de Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="António_I_de_Portugal" wx:page_id="37023" id="wx165">Prior do Crato</a> o desastre do conde de Torres Vedras foi grande perda e profunda saudade. Escrevia D. António ao <a href="/wpt/Papa_Greg%C3%B3rio_XIII" title="Papa Gregório XIII" wx:linktype="known" wx:pagename="Papa_Gregório_XIII" wx:page_id="52805" id="wx166">papa Gregório XIII</a>: <i id="wx167">... Ele (Filipe II) fez degolar o conde de Torres Vedras, o constantíssimo e fidelíssimo Manuel da Silva, que me havia confirmado a fé jurada, e que constantemente a recusara ao castelhano. Era parente dos primeiros príncipes de Castela, e contudo nem amplas recompensas propostas pelo tirano, nem cartas reiteradas e admoestações dos príncipes seus parentes, nem ainda afinal o suplício da degolação puderam demover aquele fidelíssimo conde a abandonar-me!</i>.</p>

<p id="wx168">A derrota no Pico das Contendas que frustrou a tentativa de resistência ao <a href="/wpt/Desembarque_da_Ba%C3%ADa_das_M%C3%B3s" title="Desembarque da Baía das Mós" wx:linktype="known" wx:pagename="Desembarque_da_Baía_das_Mós" wx:page_id="270603" id="wx169">desembarque da Baía das Mós</a> e a grande impopularidade, especialmente entre a aristocracia angrense, que a dureza das medidas tomadas durante o seu governo lhe granjearam, levaram a que a memória de Manuel da Silva Coutinho fosse de imediato vilipendiada, sendo-lhe imputada a responsabilidade, quase solitária, pela queda da ilha. Contudo, uma análise dos acontecimentos nos Açores e do seu enquadramento geopolítico demonstram a total inviabilidade da resistência açoriana, isolada e confinada à Terceira e ao Faial, contra Castela, a superpotência da época.</p>

<p id="wx170">A derrota foi o desfecho natural de um processo que, contra o expectável, durou mais de três anos graças à coragem e determinação dos seus actores, entre os quais avulta, com laivos de heroicidade, Manuel da Silva Coutinho.</p>

<a id="Refer.C3.AAncia" name="Refer.C3.AAncia"/>
</wx:section></wx:section><wx:section level="2" title="Referência" id="wxsec3"><h2 id="wx171">Referência</h2>

<p id="wx172">O texto atrás reproduzido é adaptado da seguinte obra:</p>

<ul id="wx173">
<li id="wx174"><i id="wx175">Estudos para a Formação do Livro D. António, Prior do Crato e seus Descendentes</i>
<p id="wx176">, <i id="wx177">Manuel da Silva Coutinho</i> (cap. II), <i id="wx178">in</i> <a href="/wpt/Camilo_Castelo_Branco" title="Camilo Castelo Branco" wx:linktype="known" wx:pagename="Camilo_Castelo_Branco" wx:page_id="16070" id="wx179">Camilo Castelo Branco</a> – Estudos para a Formação do Livro D. António Prior do Crato e seus Descendentes, in <i id="wx180">Sentimentalismo e História</i>, I – <i id="wx181">Eusébio Macário</i>; Colecção <i id="wx182">Lusitânia</i>; Lello &amp; Irmão, Editores; Porto; <a href="/wpt/1880" title="1880" wx:linktype="known" wx:pagename="1880" wx:page_id="19284" id="wx183">1880</a>. Existem múltiplas edições.</p>
</li>
</ul>

<p id="wx184"><br id="wx185"/>
<wx:template id="wx_t1" pagename="Predefinição:Biografias" page_id="10343"/>
<br clear="all" id="wx186"/>
</p>

<div class="noprint" align="center" id="wx187">
<table class="toccolours" style="margin: 0 2em 0 2em;" id="wx188">
<tr id="wx189">
<th style="background:#ccccff" id="wx190">
<p id="wx191">BIOGRAFIAS</p>
</th>
</tr>

<tr id="wx192">
<td align="center" style="font-size: 90%;" id="wx193">
<p id="wx194"><a href="/wpt/Anexo:Biografias:_A" class="new" title="Anexo:Biografias: A" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_A" id="wx195">A</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_B" class="new" title="Anexo:Biografias: B" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_B" id="wx196">B</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_C" class="new" title="Anexo:Biografias: C" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_C" id="wx197">C</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_D" class="new" title="Anexo:Biografias: D" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_D" id="wx198">D</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_E" class="new" title="Anexo:Biografias: E" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_E" id="wx199">E</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_F" class="new" title="Anexo:Biografias: F" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_F" id="wx200">F</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_G" class="new" title="Anexo:Biografias: G" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_G" id="wx201">G</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_H" class="new" title="Anexo:Biografias: H" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_H" id="wx202">H</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_I" class="new" title="Anexo:Biografias: I" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_I" id="wx203">I</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_J" class="new" title="Anexo:Biografias: J" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_J" id="wx204">J</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_K" class="new" title="Anexo:Biografias: K" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_K" id="wx205">K</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_L" class="new" title="Anexo:Biografias: L" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_L" id="wx206">L</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_M" class="new" title="Anexo:Biografias: M" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_M" id="wx207">M</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_N" class="new" title="Anexo:Biografias: N" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_N" id="wx208">N</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_O" class="new" title="Anexo:Biografias: O" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_O" id="wx209">O</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_P" class="new" title="Anexo:Biografias: P" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_P" id="wx210">P</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_Q" class="new" title="Anexo:Biografias: Q" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_Q" id="wx211">Q</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_R" class="new" title="Anexo:Biografias: R" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_R" id="wx212">R</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_S" class="new" title="Anexo:Biografias: S" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_S" id="wx213">S</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_T" class="new" title="Anexo:Biografias: T" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_T" id="wx214">T</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_U" class="new" title="Anexo:Biografias: U" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_U" id="wx215">U</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_V" class="new" title="Anexo:Biografias: V" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_V" id="wx216">V</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_W" class="new" title="Anexo:Biografias: W" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_W" id="wx217">W</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_X" class="new" title="Anexo:Biografias: X" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_X" id="wx218">X</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_Y" class="new" title="Anexo:Biografias: Y" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_Y" id="wx219">Y</a> | <a href="/wpt/Anexo:Biografias:_Z" class="new" title="Anexo:Biografias: Z" wx:linktype="unknown" wx:pagename="Anexo:Biografias:_Z" id="wx220">Z</a></p>
</td>
</tr>
</table>
</div>

<wx:templateend start="wx_t1"/>
</wx:section></wx:section></div>
<div id="wx_categorylinks">
<a href="/wpt/index.php?title=Especial:Categories&amp;article=Manuel_da_Silva_Coutinho" title="Especial:Categories" wx:linktype="known" wx:pagename="Especial:Categories" id="wx221">Categorias de páginas</a>: <span dir="ltr" id="wx222"><a href="/wpt/Categoria:Hist%C3%B3ria_dos_A%C3%A7ores" title="Categoria:História dos Açores" wx:linktype="known" wx:pagename="Categoria:História_dos_Açores" wx:page_id="396780" id="wx223">História dos Açores</a></span> | <span dir="ltr" id="wx224"><a href="/wpt/Categoria:Condados_de_Portugal" title="Categoria:Condados de Portugal" wx:linktype="known" wx:pagename="Categoria:Condados_de_Portugal" wx:page_id="75139" id="wx225">Condados de Portugal</a></span></div>
<div id="wx_languagelinks">
</div>
</body>
<wx:templatearguments for="wx_t1"><wx:argument name=""/></wx:templatearguments>
</html>
